ENSINO DA PSICOLOGIA E DA PSICOLOGIA DA CARREIRA:
O PRESENTE E IMPLICAÇÕES FUTURAS
TEACHING PSYCHOLOGY AND CAREER PSYCHOLOGY: PRESENT
AND FUTURE IMPLICATIONS
Sílvia Marina Amado Cordeiro
1
, Bruna Regina da Silva Rodrigues Rodrigues
2
, Maria do Céu Taveira de
Castro Silva Brás da Cunha
3
, Cátia Margarida da Cunha Marques
4
, Íris Martins Oliveira
5
, Ana Daniela dos
Santos Cruzinha Soares da Silva
6
, Maria Cristina Queiroz da Costa Lobo Miranda
7
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Submited on October 24
th
, 2016 | Accepted on September 11
th
, 2017 (2 rounds of revision)
Submetido em 24 de Outubro, 2016 | Aceite a 11 de Julho, 2017 (2 rondas de revisão)
Resumo
O artigo analisa o ensino da Psicologia da Carreira em Portugal, tendo em conta o panora-
ma mais geral do ensino da Psicologia. Identicaram-se as ofertas educativas de 31 instituições
de ensino superior nacionais, 12 públicas e 19 privadas, que ministram o curso de Psicologia.
Consideraram-se neste estudo, as unidades curriculares cuja designação incluía a palavra voca-
cional ou carreira e/ou abordava temas inerentes a esta área de conhecimento no seu conteúdo
programático. Os resultados da estatística descritiva mostraram a existência de 89 cursos supe-
riores de Psicologia em Portugal, distribuídos pelos três ciclos de estudos, mas apenas 49 unida-
des curriculares abordaram temas dedicados à Psicologia da Carreira. Nomeadamente, apura-
ram-se 16 unidades curriculares nos planos de estudo das licenciaturas, 18 em mestrados, 13 em
mestrados integrados e duas nos planos curriculares de doutoramentos, nesta área de conheci-
mento. A análise temática das unidades curriculares permitiu identicar temas de ensino, tais
como teorias, processos e intervenções da Psicologia da Carreira. Discute-se a situação atual do
ensino da Psicologia, em Portugal, e reete-se acerca das implicações e perspetivas futuras para
o ensino da Psicologia, especicamente, da formação especializada em Psicologia da Carreira.
Palavras-chave:
1
Associação Portuguesa para o Desenvolvimento da Carreira, Braga, Portugal. silviamarina@outlook.com
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-4808-9000
2
Associação Portuguesa para o Desenvolvimento da Carreira, Braga, Portugal. brunarodrigues4@live.com.pt
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4201-6719
3
Escola de Psicologia, Universidade do Minho, Braga, Portugal. ceuta@psi.uminho.pt
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-1762-8702
4
Escola de Psicologia, Universidade do Minho, Braga, Portugal. catiamarques@psi.uminho.pt
Orcid: https://orcid.org/0000-0001-9151-7360
5
Instituto de Estudos Superiores de Fafe, Portugal. ioliveira@psi.uminho.pt
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-4262-6768
6
Associação Portuguesa para o Desenvolvimento da Carreira, Braga, Portugal. danielasilva@psi.uminho.pt
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-8882-9184
7
Universidade Portucalense Infante D. Henrique, Porto, Portugal. ccostalobo@gmail.com
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-4459-8676
40
Sílvia Marina Amado Cordeiro, Bruna Regina da Silva Rodrigues Rodrigues, Maria do Céu Taveira de Castro Silva Brás da Cunha, Cátia Margarida
da Cunha Marques, Íris Martins Oliveira, Ana Daniela dos Santos Cruzinha Soares da Silva, Maria Cristina Queiroz da Costa Lobo Miranda
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Abstract
The article analyzes the teaching of Career Psychology in Portugal, taking the more gene-
ral panorama of Psychology teaching into account. Psychology educational oers of 31 national
higher education institutions were identied, from which 12 were public and 19 were private.
Curricular units whose designations included vocational or career words and/or covered related
themes in their programatic contents were considered in this study. Descriptive statistics results
indicated the existence of 89 higher education degrees in Psychology in Portugal, across the three
study cycles, but only 49 degrees covered topics dedicated to Career Psychology. In particular,
there were 16 curricular units in undergraduate study plans, 18 in master degree programs, 13
in integrated master degree programs and two in doctoral curricula. The thematic analysis of the
curricular units enabled identifying the teaching subjects, such as Career Psychology theories,
processes and interventions. The current situation of Psychology teaching in Portugal is discus-
sed, and implications for future perspectives and of Psychology teaching in Portugal, namely
Career Psychology, are considered.
Keywords:
Ao longo das últimas décadas, a Psicologia sofreu um crescimento signicativo, quer en-
quanto área do conhecimento, quer enquanto prossão (Coelho, Brás, Pereira, & Amaro, 2012),
tendo também impacto na área especializada Psicologia da Carreira. De modo a compreen-
dermos melhor a situação da Psicologia em geral, e da Psicologia da Carreira, em particular,
reetindo acerca das suas implicações futuras, impera a necessidade de descrevermos o atual
panorama nacional da formação universitária nesta área de estudos. No momento em que se
discute o Referencial Técnico para os(as) Psicólogos(as) Escolares da iniciativa da Direção Geral
da Educação (DGE, 2016), e se reforça a importância das intervenções de carreira no combate
aos problemas sociais vigentes em toda a Europa (Borbély-Pecze & Hutchinson, 2015; Oomen &
Plant, 2015), torna-se pertinente percebermos em que medida os cursos superiores em Psicolo-
gia estão a contribuir para a formação de Psicólogos(as) em temas da Psicologia da Carreira. Com
efeito, a Psicologia da Carreira incorpora conhecimentos especializados que podem ajudar a
responder, de forma efetiva e ecaz, às atuais necessidades dos(as) portugueses(as) inseridos(as)
em contextos de vida e de trabalho cada vez mais complexos e mutáveis, decorrentes de um
panorama socioeconómico fragilizado. Este estudo pretende, deste modo, contribuir para cla-
ricar as questões suprarreferidas, através de uma análise quantitativa e qualitativa dos cursos
superiores de Psicologia, com ênfase em unidades curriculares da Psicologia da Carreira, em
vigor no ano letivo 2015/2016.
Entender o presente e perspetivar o futuro da Psicologia em Portugal implica necessaria-
mente conhecer o seu passado. A Psicologia emerge no nal do século XIX, na Alemanha, através
de William Wundt. Em Portugal, este domínio do conhecimento surge relativamente mais tarde,
primeiramente enquanto disciplina lecionada desde a década de 30 na formação de professo-
res e, posteriormente, no curso de medicina intitulada Psicologia Médica (Magalhães, 2013). Em
1967/68, surge a primeira oferta de um plano de estudos que visa formar Psicólogos(as) de várias
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especialidades, por parte de uma instituição de ensino superior privado, o Instituto Superior
de Psicologia Aplicada (Bairrão, 1968). Porém, apenas em 1977, são criados os primeiros cursos
superiores de Psicologia (Criação do Curso de Psicologia em Universidades Públicas, 1977) em
instituições de ensino superior público, no Porto, Coimbra e Lisboa. O funcionamento do curso
de Psicologia teve início, provisoriamente, nas respetivas faculdades de letras, mas assumindo
autonomia cientíca e pedagógica. Em 1980, são criadas as Faculdades de Psicologia e de Ciên-
cias da Educação, que têm como nalidades, o ensino e a investigação cientíca nos domínios
da Psicologia e das Ciências da Educação (Criação das Faculdades de Psicologia e de Ciências
da Educação, 1980). Ainda segundo o mesmo Decreto-Lei, passa a competir às faculdades: (a)
organizar cursos de licenciatura, cursos de especialização e cursos complementares no domínio
da Psicologia e das Ciências da Educação; (b) garantir as condições necessárias para atribuição
dos graus de Mestre e de Doutor; (c) colaborar com outras instituições e serviços que requeiram
o respetivo apoio cientíco e pedagógico; (d) assegurar o desenvolvimento de projetos de inves-
tigação cientíca no âmbito da Psicologia e das Ciências da Educação e por m; (e) prestar
apoio à comunidade nos vários domínios da sua competência de atuação.
A evolução histórica da formação em Psicologia teve impacto nos domínios mais especializa-
dos da Psicologia, entre os quais a Psicologia da Carreira. O termo carreira raramente era utilizado
até ao início dos anos 60, salientando-se o termo vocacional até então. De acordo com Vondracek,
Ford, e Porfeli (2014), o termo vocacional atende à pessoa enquanto trabalhador(a), tendo em conta
a sua identicação com o trabalho. O termo carreira começou a substituir o termo vocacional, no
seguimento de atualizações teóricas e de novas intervenções (Herr, 2008). Refere-se à sequência
de papéis prossionais e não-prossionais desempenhados pela pessoa, ao longo do ciclo vital
e em múltiplos contextos de vida (Super, 1980). Contudo, quer o termo vocacional, quer o termo
carreira, partilham o mesmo princípio, isto é, consideram que o comportamento vocacional e que
o desenvolvimento de carreira devem ser compreendidos a partir de um foco privilegiado na pes-
soa em contexto (Savickas & Baker, 2005). Assim, ao longo deste trabalho e em consonância com a
literatura cientíca mais atualizada, adota-se a designação Psicologia da Carreira.
No âmbito do ensino da Psicologia da Carreira, a disciplina de orientação escolar e pro-
ssional e a disciplina de orientação vocacional, foram incorporadas no plano de estudos da
licenciatura em Psicologia desde a sua aprovação pelo Ministério da Educação, em 1980 (Apro-
vação do Plano de Estudos da Licenciatura em Psicologia, 1980). Abreu (2003) menciona que as
primeiras faculdades (i.e., Porto, Coimbra e Lisboa) constituíram núcleos ou serviços de orien-
tação escolar e prossional, sendo-lhes conferidas, pelo Ministério da Educação, funções ao ní-
vel da intervenção psicológica de carreira, em escolas do ensino básico e secundário. O mesmo
autor explica que as práticas psicológicas em questão se enquadravam no estágio curricular de
alunos do curso de Psicologia que, nos últimos dois anos da licenciatura, optavam pelo ramo
de especialização de orientação escolar e prossional. Verica-se, desde então, a inclusão da
Psicologia da Carreira no âmbito da formação superior dos(as) primeiros(as) Psicólogos(as) em
Portugal.
Para além das alterações observadas ao nível da Psicologia, também no sistema do ensino
superior se vericaram reestruturações signicativas devido às necessidades de adequação dos
cursos dentro, mas também fora do território nacional, nomeadamente ao nível europeu. As
implementações mais notórias ao nível do ensino superior advieram da Declaração de Bolonha,
que veio alterar os paradigmas de ensino/aprendizagem e promover a evolução do conheci-
Sílvia Marina Amado Cordeiro, Bruna Regina da Silva Rodrigues Rodrigues, Maria do Céu Taveira de Castro Silva Brás da Cunha, Cátia Margarida
da Cunha Marques, Íris Martins Oliveira, Ana Daniela dos Santos Cruzinha Soares da Silva, Maria Cristina Queiroz da Costa Lobo Miranda
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mento e dos interesses individuais e coletivos (Azevedo, 2008). Esta declaração visa a promoção,
quer da competitividade económica, quer da mobilidade e empregabilidade dos(as) diploma-
dos(as) na Europa (Fonseca, Manso, Vasconcelos, & Tuna, 2009). Neste sentido, a Declaração de
Bolonha propôs os seguintes objetivos específicos: (a) a adoção de um sistema de três ciclos
de estudos; (b) a criação de um sistema de transferência e acumulação de créditos e, por último;
(c) a denição das dimensões europeias de educação superior, minimizando obstáculos à mobili-
dade e ao reconhecimento e certicação de habilitações.
Em Portugal, a concretização do processo de Bolonha teve início com o Decreto-Lei refe-
rente à Aprovação dos Princípios Reguladores de Instrumentos para a Criação do Espaço Euro-
peu de Ensino Superior (2005), posteriormente alterado pelo Decreto-Lei, Promoção do Apro-
fundamento do Processo de Bolonha no ensino superior (2008), tendo sido concluído no início
do ano letivo 2009/2010 em todos os estabelecimentos de ensino superior. Deste modo, obser-
vou-se uma reforma estrutural e pedagógica no ensino superior nacional. O ensino superior
passa, então, a estar estruturado em três ciclos de estudos: o primeiro conducente ao grau de Li-
cenciado (duração de três anos), o segundo ao grau de Mestre (duração de dois anos), e o terceiro
ao grau de Doutor (duração de três anos). Para além disso, alguns cursos superiores transforma-
ram-se em mestrados integrados, incorporando a licenciatura e o mestrado, e apresentando uma
duração mais reduzida, de quatro ou cinco anos (Promoção do Aprofundamento do Processo de
Bolonha no ensino superior, 2008). No curso de Psicologia, passam a existir diferentes ofertas
formativas para adquirir a habilitação de psicólogo(a), tais como o mestrado integrado ou a con-
clusão do primeiro e do segundo ciclo de estudos.
A resenha histórica do ensino da Psicologia em Portugal foi documentada num artigo pu-
blicado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), da autoria de Coelho et al. (2012). O re-
ferido documento descreve que (a) os primeiros licenciados concluíram a sua formação a partir
de 1980, sendo que o número de licenciaturas se manteve estável ao longo dessa década; (b)
o número de licenciaturas quase quadruplicou entre 1995 e 2007; (c) vericou-se uma ligeira
redução do número de licenciaturas até 2012; e (d) registou-se uma elevada percentagem de for-
mações universitárias em Psicologia, nos distritos do Porto e de Lisboa. No mesmo documento,
identica-se Portugal como o país da Europa com o maior número de cursos superiores de Psi-
cologia por milhão de habitantes, quase o dobro do rácio do Reino Unido e mais do quádruplo do
da Espanha. O projeto “Eu quero ser Psicólogo” levado a cabo pela OPP demonstrou ainda que o
número de diplomados aumentou continuamente entre 2001 e 2006, com 1141 e 2338 diploma-
dos, respetivamente. Nos anos posteriores, começa a registar-se um decréscimo no número de
pessoas com formação superior em Psicologia, com 2063 diplomados em 2007 e 1847 em 2013.
Registou-se um total de 21929 diplomados em Psicologia até dezembro de 2014 (OPP, 2015). Os
dados descritos merecem particular reexão, uma vez que as recomendações internacionais
sugerem menos de 5 estudantes de Psicologia por mil habitantes, e os dados mais recentes for-
necidos pelo Instituto de Emprego e Formação Prossional apontam para um aumento da taxa
de desemprego entre diplomados em Psicologia, nos últimos sete anos (Coelho & Amaro, 2012).
No entanto, a OPP tem levado a cabo iniciativas, no sentido de reconhecer a qualicação nes-
ta área e em áreas especializadas. O estatuto da OPP dene, por exemplo, que o acesso à prossão
de psicólogo(a) em Portugal exige a conclusão de dois ciclos de estudos (licenciatura e mestrado)
e a realização de um estágio prossional (Alteração ao Estatuto da Ordem dos Psicólogos Por-
tugueses, 2015). Deste modo, dene-se explicitamente o tipo de habilitações académicas exigidas
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para o exercício da Psicologia. Destaca-se ainda a criação e a regulamentação de especialidades
prossionais e de especialidades avançadas da Psicologia, entre as quais consta a Psicologia da
Carreira. Esta iniciativa visa reconhecer e certicar a formação, qualicação e experiência pro-
ssional em áreas especializadas da Psicologia, legitimar o exercício prossional nessas mesmas
áreas junto da comunidade, assim como constituir um diretório público de especialistas (Regula-
mento Geral de Especialidades Prossionais da Ordem dos Psicólogos Portugueses, 2016).
Tendo em conta os cursos superiores em Psicologia vigentes em território nacional e os cri-
térios legais para o desempenho da prossão, a OPP tem também vindo a desenvolver um con-
junto de iniciativas com vista à contratação de mais psicólogos(as) em diversas áreas (e.g., Edu-
cação, Infância e Juventude, Justiça, Saúde, Segurança Social). Na área da Educação está prevista
a contratação de mais psicólogos(as) para as escolas no ano de 2017, procurando assim aproxi-
mar Portugal do rácio internacional recomendado de um(a) psicólogo(a) para 1000 estudantes
e melhor responder às atribuições destes(as) prossionais no âmbito do apoio psicopedagógico,
apoio à rede de relações e intervenção de carreira (Criação dos Serviços de Psicologia e Orien-
tação, 1991; OPP, 2014). No que à Psicologia da Carreira diz respeito, este documento salienta
a intervenção de carreira como um dos três domínios de intervenção dos(as) psicólogos(as) que
atuam em contexto escolar, claricando o seu papel prossional, as atividades/tarefas e os -
veis de intervenção que desenvolvem. Também ao nível dos Centros de Qualicação e Ensino
Prossional (CQEP), têm sido efetuados alertas para a contratação de mais psicólogos(as), tendo-
se vericado que existem equipas sem esses prossionais, os quais são importantes para apoiar
jovens adultos(as) e adultos(as) na sua formação e construção de carreira ao longo da vida. Esta
trata-se, pois, de uma questão urgente, uma vez que as competências de avaliação psicológica
e intervenção de carreira são exclusivas do(a) Psicólogo(a) (OPP, 2015). Ainda assim, estas ini-
ciativas de apoio à empregabilidade dos(as) diplomados(as) em Psicologia parecem sustentar
um novo fôlego da Psicologia da Carreira e dos(as) psicólogos(as) nessa especialidade avançada.
Contudo, não se encontram estudos sobre a caraterização da formação especializada em
temas da Psicologia da Carreira, em Portugal. Será, pois, importante colmatar esta lacuna, dada
a necessidade de conhecer e garantir formação cientíca especializada em Psicologia da Car-
reira, que sustente avanços na investigação e na qualidade das práticas psicológicas de carreira,
através da preparação cientíca de psicólogos(as) que possam vir a ser reconhecidos(as) como
conselheiros(as) e técnicos(as) especialistas nesta área, de acordo com o International Center for
Career Development and Public Policy (ICCDPP, 2016).
Em suma, o presente trabalho pretende analisar o ponto de situação do ensino da Psicolo-
gia da Carreira em Portugal, tendo em conta o panorama mais geral do ensino da Psicologia. Para
o efeito, este trabalho (a) identica os cursos superiores em Psicologia, nos seus diferentes ciclos
de estudos, lecionados em Portugal no ano letivo 2015/2016; (b) sinaliza quais desses cursos
superiores em Psicologia possuem programas curriculares incidentes no ensino da Psicologia
da Carreira, e por último; (c) identica as unidades curriculares e os respetivos temas abordados
neste domínio especializado.
Método
Amostra
A amostra do estudo é constituída por um total de 89 cursos de Psicologia, de 31 instituições
Sílvia Marina Amado Cordeiro, Bruna Regina da Silva Rodrigues Rodrigues, Maria do Céu Taveira de Castro Silva Brás da Cunha, Cátia Margarida
da Cunha Marques, Íris Martins Oliveira, Ana Daniela dos Santos Cruzinha Soares da Silva, Maria Cristina Queiroz da Costa Lobo Miranda
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de ensino superior, das quais 12 referentes ao ensino público e 19 ao ensino privado. Os 89 cur-
sos encontram-se distribuídos por 26 licenciaturas, 47 mestrados, cinco mestrados integrados e
11 doutoramentos. Consideraram-se todas as universidades e institutos politécnicos portugueses
que incluem o curso de Psicologia na sua oferta formativa. No âmbito mais especíco do ensino
da Psicologia da Carreira, consideraram-se os planos curriculares referentes a 11 licenciaturas, 12
mestrados, cinco mestrados integrados e um doutoramento. Analisaram-se, assim, os conteúdos
de 31 unidades curriculares integradas nos planos curriculares suprarreferidos.
Material
Os dados foram recolhidos através dos registos de arquivo online constantes nos sites de
todas as instituições de ensino superior públicas e privadas que ministram o curso de Psicologia.
Nomeadamente, Instituto Universitário de Lisboa, Universidade dos Açores, Universidade do
Algarve, Universidade de Aveiro, Universidade da Beira Interior, Universidade de Coimbra, Uni-
versidade de Évora, Universidade de Lisboa, Universidade do Minho, Universidade da Madeira,
Universidade do Porto, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Instituto Universitário
de Ciências Psicológicas Sociais e da Vida, Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Mo-
niz, Instituto Superior de Estudos Interculturais e Transdisciplinares de Almada, Instituto Supe-
rior de Estudos Interculturais e Transdisciplinares de Viseu, Instituto Superior Manuel Teixeira
Gomes, Instituto Superior Miguel Torga, Instituto Universitário de Ciências da Saúde, Instituto
Universitário da Maia, Universidade Autónoma de Lisboa Luís de Camões, Universidade Cató-
lica Portuguesa (Braga, Porto e Lisboa), Universidade Europeia, Universidade Fernando Pessoa,
Universidade Lusíada (Porto e Lisboa), Universidade Lusófona (Porto e Lisboa) e Universidade
Portucalense Infante D. Henrique.
Nas plataformas online de cada uma das instituições de ensino superior referidas, recolhe-
ram-se dados relativos aos planos curriculares dos cursos de Psicologia correspondentes (i.e.,
licenciatura, mestrado, mestrado integrado e doutoramento). Através da análise dos planos cur-
riculares, contabilizaram-se as unidades curriculares dedicadas especicamente ao ensino da
Psicologia da Carreira. Neste sentido, foram denidos os seguintes critérios de inclusão: (a) a
designação das unidades curriculares inclui as palavras “vocacional” e/ou “carreira” (e.g., Psi-
cologia Vocacional, Gestão e Aconselhamento de Carreira, Avaliação em Contextos de Acon-
selhamento Vocacional); e (b) as unidades curriculares apresentam designações diversas, mas
incluem conteúdos programáticos associados à Psicologia da Carreira (e.g., Psicologia Escolar,
Psicologia da Educação, Raciocínio e Tomada de Decisão, Seminário de Desenvolvimento de
Competências Académicas e Prossionais).
Procedimento
O presente estudo teve na sua base a análise da informação recolhida quanto ao curso
superior de Psicologia em Portugal, considerando-se os três ciclos de estudos. Para tal, recorreu-
se à informação disponibilizada no portal da Direção Geral do Ensino Superior no ano letivo
2015/16, a m de se identicarem as instituições de ensino superior que ministram o curso de
Psicologia. Num segundo momento, após identicadas as instituições de ensino superior -
blicas e privadas que apresentam a Psicologia na sua oferta formativa, consultaram-se os res-
petivos websites. Nesta fase, o objetivo incidiu na identicação dos cursos de mestrado e de
doutoramento no domínio da Psicologia. Identicados os cursos, realizou-se uma análise dos
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documentos disponibilizados online, respeitantes aos conteúdos programáticos dos mesmos, de
modo a se contabilizarem as unidades curriculares dedicadas ao ensino da Psicologia da Carrei-
ra, de acordo com os critérios de inclusão estabelecidos.
Os dados recolhidos foram alvo de análises quantitativas descritivas da frequência absolu-
ta e relativa, utilizando o Statistical Package for the Social Sciences (IBM SPSS, versão 22.0).
Resultados
Distribuição dos Cursos de Psicologia por Instituições de Ensino Públicas e Privadas
Constatou-se, na amostra de 89 cursos superiores de Psicologia distribuídos pelos três ci-
clos de estudos de 31 instituições de ensino superior, a predominância de formações superiores
em Psicologia em instituições de ensino da região sul e norte, nomeadamente nos distritos de
Lisboa (n = 8) e do Porto (n = 8).
No primeiro ciclo de estudos, identicaram-se 26 licenciaturas (29.2%), das quais oito são
lecionadas em instituições de ensino superior público e 18 no ensino superior privado. Em re-
lação ao segundo ciclo, apuraram-se 47 mestrados (52.8%) distribuídos por diferentes áreas de
especialização, 17 em instituições públicas e 30 em instituições privadas. No que respeita aos
mestrados integrados, identicaram-se cinco no total (5.6%), sendo quatro em instituições de
ensino superior público e um no ensino superior privado. No terceiro ciclo de estudos, contabili-
zaram-se 11 cursos de doutoramento em Psicologia em todo o país (12.4%), nove em instituições
de ensino superior público e dois em instituições privadas (ver Figura 1).
Figura 1. Distribuição dos três ciclos de estudo em psicologia por instituições de ensino superior público

Distribuição do Ensino da Psicologia da Carreira
Os resultados apresentados a seguir reportam-se à distribuição das unidades curriculares
com foco no ensino da Psicologia da Carreira ao longo dos três ciclos de estudos.
2
Instituições de Ensino Superior Privadas
Instituições de Ensino Superior Públicas
Doutoramentos
Mestrados Integrados
Mestrados
Licenciaturas
0 5 10 15 20 25 30 35

30
1
17
4
Sílvia Marina Amado Cordeiro, Bruna Regina da Silva Rodrigues Rodrigues, Maria do Céu Taveira de Castro Silva Brás da Cunha, Cátia Margarida
da Cunha Marques, Íris Martins Oliveira, Ana Daniela dos Santos Cruzinha Soares da Silva, Maria Cristina Queiroz da Costa Lobo Miranda
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Das 26 licenciaturas em Psicologia identicadas, três oferecem unidades curriculares cen-
tradas em temas da Psicologia da Carreira no ensino superior público (11.5%) e oito no ensino
superior privado (30.8%). No que diz respeito aos 47 mestrados em Psicologia, oito (17%) e qua-
tro (8.5%) cursos do ensino superior público e privado, respetivamente, incidem no ensino da
Psicologia da Carreira. Os mestrados integrados em Psicologia, na sua totalidade (n = 5), contêm
unidades curriculares de formação neste domínio mais especíco da Psicologia. Em relação aos
11 doutoramentos identicados, apurou-se que estes se encontram distribuídos por diferentes
áreas de especialização, especicamente: cinco doutoramentos em Psicologia, dois em Psicolo-
gia Clínica e, um em Psicologia da Educação, em Psicologia Social, em Psicologia Aplicada e em
Psicologia Básica. Vericou-se que do total dos 11 cursos de doutoramento nacionais, apenas um
apresenta um plano de estudos com duas unidades curriculares cujos conteúdos programáticos
incidem em questões do desenvolvimento da carreira.
Como se pode observar pela leitura da Figura 2, registou-se um total de 49 unidades cur-
riculares de ensino da Psicologia da Carreira. Destas, 16 constam nos planos curriculares de
licenciaturas (32.7%), 18 em mestrados (36.7%), 13 em mestrados integrados (26.5%) e duas em
doutoramentos em Psicologia (4.1%).
Figura 2.
Ao nível das licenciaturas, foram identicadas quatro unidades curriculares nos planos de
estudo de instituições de ensino superior públicas (25%) e 12 em instituições de ensino superior
privadas (75%). No que respeita aos mestrados, foram consideradas 10 unidades curriculares
no ensino superior público (55.6%) e oito no ensino superior privado (44.4%). Relativamente
aos mestrados integrados, foram assinaladas 12 unidades curriculares em instituições públicas
(92.3%) e uma em instituições privadas (7.7%). Duas unidades curriculares com conteúdos pro-
gramáticos associados à Psicologia da Carreira foram identicadas nos planos de estudo de dou-
toramentos.
Instituições de Ensino Superior Privadas
Instituições de Ensino Superior Públicas
Doutoramentos
Mestrados Integrados
Mestrados
Licenciaturas
          
12
1
4
10
12
2
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De referir que 18 do total de 49 unidades curriculares de ensino da Psicologia da Carreira
não foram alvo de análise dos programas curriculares devido à impossibilidade de acesso aos
mesmos. Nestes casos considerou-se o primeiro critério de inclusão (i.e., a designação das uni-
dades curriculares inclui as palavras “vocacional” e/ou “carreira”).
Temas Abordados nas Unidades Curriculares da Psicologia da Carreira
Analisaram-se os conteúdos programáticos de 31 unidades curriculares, vericando-se
que todas se inserem no domínio mais amplo da Psicologia Aplicada, na medida em que procu-
ram fomentar a aplicação dos conhecimentos da Psicologia à resolução/prevenção de proble-
mas de carreira dos indivíduos (n = 31). Constatou-se ainda que das 31 unidades curriculares
analisadas, 25 centram-se exclusivamente no aprofundamento de conteúdos e competências
inerentes à Psicologia da Carreira, enquanto seis compreendem temáticas de outros domínios
especícos da Psicologia (e.g., diculdades de aprendizagem).
Para além disso, contabilizaram-se 19 unidades curriculares com objetivos e conteúdos
formativos relativos à concetualização teórica, avaliação e intervenção em problemáticas da
Psicologia da Carreira (61.3%), seis focadas no desenvolvimento de competências de carreira
dos(as) estudantes (19.4%), três com conteúdos programáticos conciliadores da teoria e da in-
tervenção psicológica de carreira (9.7%), duas incidentes apenas no desenvolvimento de conhe-
cimentos e competências inerentes à avaliação psicológica da carreira (6.5%), e uma dedicada
exclusivamente à fundamentação concetual das problemáticas mais frequentes neste domínio
especializado da Psicologia (3.2%).
Através de uma análise temática, qualitativa, dos conteúdos abordados nas unidades cur-
riculares, construiu-se uma grelha de temas objeto de estudo das unidades curriculares especí-
cas da Psicologia da Carreira e outras mais genéricas, mas que também consideram essa área
especializada de conhecimento (Tabela 1).
Tabela 1
Grelha de Temas de Objeto de Estudo das Unidades Curriculares
Unidades Curriculares Temas da Psicologia da Carreira
Psicologia Vocacional
Psicologia do Desenvolvimento Vocacional
Desenvolvimento Vocacional e da Carreira
Desenvolvimento e Orientação Vocacional
Avaliação em Contextos de Aconselhamento
Vocacional
Modelos de Carreira e Consulta Vocacional
Modelos e Intervenções em Psicologia Vocacional
Consulta Psicológica de Orientação Vocacional
Perspetiva histórica das intervenções na Carreira
Teorias psicológicas do comportamento vocacional
Contextos e intervenção de consulta vocacional
Consulta psicológica vocacional
Avaliação psicológica na intervenção vocacional: princípios,
técnicas e instrumentos
Modelos teóricos do desenvolvimento da Carreira
Programas estruturados de desenvolvimento de Carreira
Desenvolvimento de carreira em diferentes espaços e contextos
ao longo da vida
Dimensões éticas da avaliação e intervenção em psicologia
vocacional
Sílvia Marina Amado Cordeiro, Bruna Regina da Silva Rodrigues Rodrigues, Maria do Céu Taveira de Castro Silva Brás da Cunha, Cátia Margarida
da Cunha Marques, Íris Martins Oliveira, Ana Daniela dos Santos Cruzinha Soares da Silva, Maria Cristina Queiroz da Costa Lobo Miranda
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Tabela 1 (continuação)
Grelha de Temas de Objeto de Estudo das Unidades Curriculares
Unidades Curriculares Temas da Psicologia da Carreira
Avaliação Psicológica em Contexto da Carreira
Avaliação psicológica nas intervenções de Carreira: estado da arte
Aspetos psicométricos da avaliação
Maturidade vocacional e a tomada de decisão
Investigação e intervenção de Carreira
Entrevista estruturada de avaliação da Carreira
e outros procedimentos qualitativos
Aconselhamento e Orientação nas Transições
Modelos de desenvolvimento humano aplicados
às transições
Transições e transições relacionais, modelos
de aconselhamento, aconselhamento de grupo
Aconselhamento de Carreira OnLine
Aconselhamento de Carreira face a face - objetivos, caraterísticas,
fases e procedimentos
Aspetos práticos do aconselhamento online (Carreira)
Recursos online (websites) para o aconselhamento
de Carreira
Exploração Vocacional I
Exploração Vocacional II
Temáticas de exploração do meio como o 1º contacto com o mercado
de trabalho
Contextualização do papel do(a) Psicólogo(a) nos diferentes
contextos de intervenção psicológica
Estabelecimento de redes de contactos prossionais
Gestão e Aconselhamento da Carreira
Perspetiva construtivista do aconselhamento de Carreira
Avaliação e intervenção em aconselhamento da Carreira (diferentes
papéis e fases do ciclo de vida que a carreira envolve)
Práticas construtivistas de aconselhamento da Carreira noutras
modalidades de intervenção psicológica
Temas de Desenvolvimento de Carreira do Adulto
Perspetivas integrativas no estudo da Carreira: sistémica,
do desenvolvimento em contexto, da complexidade e processos
caóticos
Referentes múltiplos da Carreira (metáforas e relação com teorias
explicativas)
A Carreira como: ajustamento pessoa meio, ciclos, herança, papéis,
ação, viagens, relações, estórias, recursos
As Carreiras sem fronteiras e proteica
Modelos para desenvolvimento da Carreira: gestão e criatividade
Projeto de Desenvolvimento Pessoal e Prossional
Integrar experiências vividas ao longo do curso, sejam elas
concetuais, exploratórias, com vista a construir uma avaliação
reetida sobre o seu desenvolvimento vocacional, integrado
no seu desenvolvimento pessoal e social
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Tabela 1 (continuação)
Grelha de Temas de Objeto de Estudo das Unidades Curriculares
Unidades Curriculares Temas da Psicologia da Carreira
Desenvolvimento de Competências Prossionais
Seminário de Desenvolvimento de Competências
Académicas e Prossionais
Estabelecer um plano a curto/médio prazo de trajetória prossional
– conhecer o processo, métodos e instrumentos de procura
de emprego – identicar e avaliar recursos pessoais – a entrevista
de emprego
Técnicas de expressão e comunicação
Introdução à Psicologia Vocacional
Novas realidades organizacionais e os conceitos emergentes
de Carreira, as teorias prévias de Carreira e a gestão pessoal
da Carreira
Psicologia Escolar
Temas variados no âmbito da teoria, investigação e intervenção
em contexto educativo
Desenvolvimento vocacional e de Carreira (modelos de tomada
de decisão e os fundamentos teóricos da intervenção vocacional
e de Carreira)
Psicologia da Educação
O(A) Psicólogo(a) da educação em contexto escolar (subtema:
consultoria psicológica vocacional)
Aconselhamento em Contextos Educativos
O aconselhamento vocacional no quadro
do aconselhamento psicológico
Perspetivas teóricas da Psicologia Vocacional
e suas implicações para a intervenção
Etapas do aconselhamento vocacional
Técnicas de avaliação psicológica em aconselhamento vocacional
A entrevista vocacional
Aconselhamento vocacional em momentos de transição normativa
e para populações com problemáticas especícas
Seminário Optativo I
O desenvolvimento vocacional e a construção
de projetos de vida: implicações para a intervenção
A avaliação psicológica em orientação
Transições psicossociais e qualidade de vida
Novas perspectivas para a Psicologia Vocacional
Seminário Optativo II
Abordagem contextualista-desenvolvimentista
e sociocognitiva da Psicologia Vocacional
Discussão
Este trabalho procurou analisar o ponto de situação do ensino da Psicologia da Carreira em
Portugal, tendo em conta o panorama mais geral do ensino da Psicologia. Com base no trabalho
realizado, a discussão atribui um foco inicial à distribuição do ensino da Psicologia a nível na-
cional nos três ciclos de estudos, e de seguida dá-se particular enfoque ao ensino da Psicologia
da Carreira no ensino superior. Neste âmbito, apresenta-se um conjunto de reexões acerca da
situação atual da formação em Psicologia e, mais especicamente, da Psicologia da Carreira,
debatendo-se implicações futuras.
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No âmbito mais abrangente do ensino da Psicologia, os resultados obtidos vão ao encontro
de estudos anteriores (e.g., Coelho et al., 2012), que têm sugerido um decréscimo do número de
licenciaturas em Portugal. Segundo Coelho et al. (2012), entre os anos de 2007 e 2012, o número
de licenciaturas reduziu de 37 para 32, respetivamente. De acordo com os resultados apurados
no presente estudo, o número de licenciaturas em Psicologia encontra-se ainda mais reduzido
no ano de 2016, contabilizando-se 26. Estudos futuros conduzidos sob parceria entre a OPP,
psicólogos(as) e investigadores(as) poderão aprofundar estes resultados, através de uma análise
evolutiva da oferta formativa nos três ciclos de ensino superior em Psicologia e da sua articu-
lação com registos de empregabilidade no contexto Português. Esses elementos seriam impor-
tantes para melhor contextualizar a formação e a situação prossional dos(as) psicólogos(as) em
Portugal, assim como para sustentar estudos prospetivos da prossão e medidas estratégicas
que salvaguardem a sua armação e sustentabilidade nacional.
Neste estudo, vericou-se ainda que mais de metade das licenciaturas (n = 18) são ministradas
em instituições de ensino superior privadas. O mesmo se verica em relação ao segundo ciclo de es-
tudos, com 30 mestrados constantes na oferta formativa de instituições de ensino superior privadas.
É, assim, notório o desfasamento da oferta formativa em Psicologia entre ensino superior público e
privado, podendo justicar-se reexão por parte dos órgãos decisores quanto aos motivos que jus-
ticam esse desfasamento e a uma eventual necessidade de conquistar uma distribuição mais equi-
tativa, salvaguardando-se, contudo, as implicações futuras que daí podem advir (e.g., balanço entre
o número de diplomados(as) e empregados(as) em Psicologia). Estes resultados inerentes à situação
geral da Psicologia podem estar relacionados com uma tentativa de reverter o elevado número de
diplomados(as) em Psicologia em Portugal, que ultrapassa as recomendações internacionais e que
se tem reetido em elevados níveis de desemprego entre os(as) prossionais desta área (Coelho &
Amaro, 2012; Coelho et al., 2012). Considera-se, assim, importante continuar a investir continua-
mente em iniciativas que visem, entre outros aspetos, claricar o papel dos(as) psicólogos(as) nos
mais variados contextos de atuação e especialidades, bem como em que medida o investimento
nestes(as) prossionais poderá converter-se em lucro, tanto a nível social, como a nível nanceiro
para o país (OPP, 2014). Parece-nos igualmente pertinente trabalhar ao nível da promoção da em-
pregabilidade dos(as) estudantes de Psicologia, ao longo da sua formação superior, quer através de
intervenções deliberadas de promoção de competências de gestão pessoal da carreira, quer através
da infusão nos próprios planos de estudo, favorecendo a identicação e exploração dos múltiplos
contextos onde os(as) psicólogos(as) podem atuar e constituir uma mais-valia (e.g., marketing e pu-
blicidade, gestão de projetos), abrindo o leque de possibilidades de emprego. O envolvimento ativo
e a colaboração estreita entre as respetivas instituições de ensino superior e a OPP poderá ser, par-
ticularmente, fortuita na implementação deste tipo de ações (Coelho et al., 2012).
No que diz respeito ao ensino da Psicologia da Carreira, vericou-se que os três ciclos de
estudos incluem, nos seus planos de estudo, unidades curriculares centradas em temas da Psico-
logia da Carreira. Das 26 licenciaturas analisadas, 11 incluem unidades curriculares centradas
em temas da Psicologia da Carreira. Nos mestrados identicaram-se 12 unidades curriculares
e dos 11 doutoramentos identicados, apenas um apresenta duas unidades curriculares com
conteúdos relativos ao desenvolvimento da carreira. Neste âmbito, destaca-se que aproxima-
damente 45% do total de doutoramentos são em Psicologia e 18% em Psicologia Clínica. Estes
resultados podem associar-se a uma maior oferta formativa no domínio mais geral da Psicologia
e no domínio mais especíco da Psicologia Clínica, parecendo existir um menor foco na especia-
lidade avançada em Psicologia da Carreira.
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Importa, ainda assim, reetir sobre estes resultados, nomeadamente tendo em conta a perti-
nência e utilidade da formação superior em Psicologia da Carreira nos diferentes ciclos de estudos,
assim como a sua relação com a prática e saídas prossionais. Com efeito, a Psicologia da Carreira
abarca o estudo e a prevenção ou resolução de diculdades/problemas de carreira dos indiví-
duos, considerando não só as escolhas escolares e prossionais ao longo da vida, como também
os restantes domínios e papéis de vida (Super, 1980; Vondracek et al., 2014). As questões da
carreira são, hoje em dia, concebidas numa perspetiva holística e integrada, motivo pelo qual
nos parece relevante que esta abordagem seja cada mais vez patente nos planos curriculares
dos cursos superiores em Psicologia, numa ótica do desenvolvimento integral dos indivíduos.
A formação superior em temas da Psicologia da Carreira torna-se fulcral para que os(as) psi-
logos(as), independentemente do contexto de intervenção em que se insiram (e.g., clínico,
educativo), consigam responder mais ecazmente às especicidades dos indivíduos ou grupo(s)
de pessoas, que atualmente se confrontam com contextos laborais instáveis, transições de car-
reira inesperadas e crescente necessidade de desenvolverem resiliência e adaptabilidade. Uma
conceção contemporânea de carreira, decorrente de contextos de trabalho caraterizados pela
complexidade, imprevisibilidade e instabilidade, precisa ser aceite e incutida pelos(as) psicólo-
gos(as), de modo a que estes(as) mesmos(as) prossionais reconheçam o seu valor social e possam
beneciar de formação especializada que lhes permitam ajudar os indivíduos a lidar com múlti-
plas transições e a construir trajetórias de carreira saudáveis e satisfatórias, nos mais variados
contextos (Savickas & Baker, 2005).
Uma vez que nos referimos a um domínio especíco da Psicologia, importa também ree-
tir acerca das implicações da criação do colégio das especialidades prossionais levada a cabo
pela OPP (Regulamento Geral de Especialidades Prossionais da Ordem dos Psicólogos Portu-
gueses de 2016). Ao estabelecer a Psicologia da Carreira como uma especialidade avançada da
Psicologia, o colégio das especialidades poderá acompanhar e apoiar as instituições de ensino
superior na denição da oferta formativa em Psicologia, bem como estimular os(as) estudantes
e psicólogos(as) a investirem numa das três especialidades reconhecidas (Psicologia Clínica e da
Saúde, Psicologia da Educação e Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações) e respetivas
especialidades avançadas. Neste sentido, seria pertinente uma revisão ponderada dos planos
de estudos dos cursos superiores, com o intuito de promover uma formação equilibrada nas
diferentes especialidades da Psicologia através de uma clara denição de unidades curriculares
centradas em cada uma destas. Isto permitiria que o ensino superior se articulasse com a entida-
de nacional representante dos(as) psicólogos(as) portugueses(as) rumo aos objetivos subjacentes
à criação de especialidades prossionais (Regulamento Geral de Especialidades Prossionais da
Ordem dos Psicólogos Portugueses de 2016). Tal articulação beneciaria toda a comunidade, que
caria equipada com grupos de especialistas altamente capacitados para intervir em domínios
especícos da Psicologia, com maior ecácia e eciência.
Apesar da pertinência deste trabalho, ao analisar a situação da Psicologia da Carreira
dentro do panorama nacional mais geral em Psicologia, importa reconhecer que uma limitação
consistiu na impossibilidade de se analisarem os conteúdos de todas as unidades curriculares
identicadas no âmbito da Psicologia da Carreira, devido à inacessibilidade dessa mesma infor-
mação online. Seria, pois, profícuo solicitar e envolver a colaboração das instituições de ensino
superior público e privado do país, no sentido de reunir informação descritiva mais completa
acerca dos planos curriculares das licenciaturas, mestrados, mestrados integrados e doutora-
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mentos em Psicologia. Ao adotar uma rede colaborativa nacional nesta linha de pesquisa, pode-
ria ser igualmente útil proceder a uma análise morfológico-sintática dos dados, que permitisse
encontrar possíveis paridades e/ou divergências entre os três ciclos de estudo e entre os setores
de ensino, quer no que respeita à denominação dos cursos, quer no que respeita às respetivas
unidades curriculares. Seria ainda relevante dar continuidade a este estudo durante os próxi-
mos anos letivos, adotando um design longitudinal que possibilitasse avaliar e discutir o rumo da
formação superior em Psicologia e, em particular, na Psicologia da Carreira, em Portugal.
Não obstante as limitações identicadas e a necessidade de investigações futuras darem
continuidade a este estudo, o presente trabalho reconhece as implicações do ensino da Psicolo-
gia para o domínio especializado da Psicologia da Carreira, que tem ganho crescente reconhe-
cimento a nível nacional e internacional (Borbély-Pecze & Hutchinson, 2015; Oomen & Plant,
2015). Importa que o ensino superior e a ordem prossional em Psicologia cooperem entre si,
procurando contribuir para uma formação sólida de futuros(as) conselheiros(as) e especialistas
em Psicologia da Carreira. Estes prossionais poderão ter um papel-chave na sociedade, dando
continuidade a este domínio do conhecimento e delineando intervenções de carreira cienti-
camente sustentadas. Deste modo, o papel destes(as) especialistas poderá contribuir positiva-
mente para o combate a problemas sociais vigentes no país através, por exemplo, da promoção
de competências de adaptabilidade, identidade e gestão pessoal da carreira ao longo da vida
(Vondracek et al., 2014), incluindo no ensino superior.
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