A Construção do novo Método e do novo objeto
dA PsiCAnálise
THE BUILDING OF THE NEW METHODOLOGY AND THE NEW OBJECT
OF PSYCHOANALYSIS
António Francisco Mendes Pedro
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Resumo
Entre o pós-segunda grande guerra e o nal do século passado, a psicanálise procurou uma
via reformista que lhe permitisse conciliar as descobertas que ia fazendo com a observação da
realidade psíquica de crianças e bebés e certos pressupostos mítico losócos da metapsicologia
freudiana. Mas, como se tem vindo a perceber, desde o virar do século, para não soçobrar aos im-
passes e se desenvolver como ciência, a psicanálise necessita levar a termo, e de modo aberto, uma
revolução cientíca. Propomos neste artigo teórico-clínico, que as relações humanas íntimas e a
sua transformação são o novo objeto da psicanálise, com a nova metodologia focada na observação
intencional e na intervenção interintencional. Esta metodologia centra-se no estudo, não só do pre-
sente e do passado em função da sintonia empática, mas sobretudo das respostas complementares,
as quais são enações interintencionais, vividas e elaboradas na relação de intimidade, voltada para
o futuro. Assim, a psicanálise é a ciência da mudança do padrão relacional íntimo, com ecácia para
a mudança social e a criatividade cientíca e artística. É uma proposta que integra as descobertas
da neurociência e da psicossociologia na psicanálise e a psicanálise, no seio das outras ciências.
Palavras-chave:
Abstract
Between the post-Second Great War and the end of the last century, psychoanalysis sou-
ght a third reformist path that would allow it to reconcile the discoveries it was making with
the observation of psychic reality of children and babies and certain mythical philosophical
assumptions of Freudian metapsychology. However, as we come to realize since the turn of the
century, in order not to cease its impasses and develop as a science, psychoanalysis needs to
bring o, in an open way, a scientic revolution. We propose in this theoretical-clinical article,
that intimate human relations and their transformation are the new object of psychoanalysis,
with the new methodology focused on intentional observation and interintentional interven-
1
CIP-UAL, Universidade Autónoma de Lisboa, Lisboa, Portugal, ampedro@autonoma.pt,
Orcid: https://orcid.org/0000-0002-3469-5862
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António Francisco Mendes Pedro
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tion. This methodology focuses on the study not only of the present and the past in terms of
empathic attunement, but above all of complementary responses, which are interintentional,
lived and elaborated in the relationship of intimacy oriented towards the future. Thus, psy-
choanalysis is the science of changing the intimate relational pattern, with eectiveness for
social change and scientic and artistic creativity. It is a proposal that integrates the discove-
ries of neuroscience and psycho-sociology in psychoanalysis, and psychoanalysis amongst the
other sciences.
Keywords:
A Psicanálise foi-se desenvolvendo entre dois paradigmas fundamentais: o do ideal
metapsicológico, em busca da verdade no ser humano, e o cientíco, submetido ao método
da observação da realidade.
Na primeira grande encruzilhada da psicanálise, Freud (1956) afastou-se deliberadamente
das suas primeiras observações sobre os pacientes que eram objeto de sedução real traumática
– “já não acredito na minha neurótica” (Freud, 1897, 1956) – para conceber uma metapsicologia
da verdade psíquica, constituída por pulsões e fantasmas inconscientes, que se manifestam nos
fantasmas originários, na sexualidade infantil e no complexo de Édipo, e explicam a teoria da
libido e do prazer como objetivo humano central.
Descurando também a técnica cientíca da observação do real, Melanie Klein levou ao
excesso o modelo de Freud (Klein, 1932) com a sua teoria sobre o desenvolvimento precoce, a
partir do estudo dos fantasmas do adulto doente, aplicando-os à reconstrução da verdade do
bebé e da criança. Assimilando a pulsão ao fantasma e à relação de objeto, acabou por excluir
toda a realidade material e focou-se exclusivamente na análise dos fantasmas, os quais seriam
originais, gerais e teriam uma base genética, seja por exemplo esse de que a mama da mãe é
investida, automaticamente, pelo bebé como devoradora e como objeto a ser devorado! Com
base na radicalização do paradigma da pulsão-fantasmatização, Klein foi levada ao extremo de
considerar que todos os bebés passariam por fases esquizo-paranoides, depressivas!... e de que
o que é profundo, numa pessoa, se sobreporia ipso facto ao que é precoce!
As ciências tendem naturalmente a nascer duma mistura entre a armação religiosa-míti-
ca da verdade, o conhecimento losóco e a observação pontual da realidade. É o que se passou
com a psicanálise. Mas o que este artigo interroga são as razões da crise da psicanálise, traduzida
pela sua marginalização nos meios cientícos e universitários. Temos o objetivo de contribuir
para que ela retome o seu desenvolvimento cientíco, pelo salto epistemológico, o que é da
maior importância para o desenvolvimento e a mudança na teoria e na prática das relações hu-
manas atuais (Mendes-Pedro, 2016).
O após guerra mundial colocou aos cientistas da psicologia o problema do desenvolvi-
mento dos bebés e das crianças traumatizadas pelas situações que viveram. Winnicott (1971) dedi-
cou-se então à observação dos bebés a brincar com objetos no colo das suas mães. O que observou
foi a realidade sensível e tangível das interações, em particular das trocas de olhares mútuos e de
expressões faciais, fundadoras do narcisismo do bebé e da mãe, após a fase da dependência abso-
luta do mirroring. A intuição de Winnicott relegou para segundo plano a teoria da pulsão-prazer,
já que a realidade lhe impôs que a pulsão nasceria nos braços duma mãe com o seu bebé ao colo.
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Implicando isso, simultaneamente, a sua vida fantasmática, mas também a textura tátil da mama,
o cheiro do leite, a forma de o segurar tatilmente, a história concreta da interação entre o bebé e a
sua mãe. Assim, apoiando-se na nova técnica da observação do real, e conciliando-a com a teoria
apríoristica das representações fantasmáticas da mãe, construiu, pela prática clínica, uma reforma
evolutiva cientíca da psicanálise, com a utilização de métodos e técnicas inventivas e lúdicas.
Não obstante pode teorizar com criatividade que as interações precoces constroem a preocupação
materna primária, pré formam a relação de objeto, antecipam e modulam a construção do sentido
do si/eu/self, como sentimento narcísico de existir com uma certa continuidade, possibilitando
assim o amadurecimento do bebé quando benecia dum ambiente facilitador.
Assim, o movimento da chamada terceira via do “Middle Group” procurou conciliar a metapsi-
cologia freudiana do negativo e da ausência (resumida na expressão: “O seio nasce da ausência do
seio”, isto é, o objeto mental nasce da ausência do objeto real, o que origina o psiquismo do “bebé ver-
dadeiro”) com a metapsicologia da presença e do encontro (na origem da constituição do “bebé real”
e dos padrões de vinculação). E foi nesse caminho que prosseguiram outros, como Serge Lebovici, em
França, nos anos 80-90 do século passado. Apesar das injunções dos psicanalistas clássicos de adul-
tos, como André Green, que criticavam ferozmente os psicanalistas de bebés, por estes se centrarem
na abordagem dos bebés reais e não na reconstrução “après-coup” do bebé verdadeiro presente nos
fantasmas dos adultos, que tinham como objeto único da psicanálise! (Mendes-Pedro, 2013).
Ao longo dos anos 80, Serge Lebovici, que era amigo de Winnicott, costumava, nas consul-
tas de bebés, dar um papel mais ativo a estes, pois olhava e falava tanto com o bebé como com a
mãe ou o pai, no intuito de os liar e aliar, inscrevendo-os na história familiar e da cultura de
pertença. Ele considerava-se a si como avô paterno, e com isso justicava as suas intervenções
diretas na tríade, pautadas ora pela empatia ora pelo distanciamento. Subjacente a esta prática
estava sempre o modelo clássico edipiano do tratamento psicanalítico, caraterizado pela repe-
tição e pela reconstrução da neurose infantil, a qual desta vez repetiria a história das interações
precoces. Estes dois cientistas da terceira via psicanalítica inseriram, pois, a dimensão fenome-
nológica da realidade observada no velho paradigma da pulsão-fantasma. Obtiveram com isso
uma grande liberdade nas suas práticas clínicas, ditadas pelo que Lebovici (Lebovici & Stoléru
1983) viria a chamar a enação empática, e que representa, a nosso ver, uma inovação reformista!
Por boas razões seduziram os públicos inglês e francês, mas não transformaram a psicanálise.
A centração no estatuto do real e da realidade constituintes do funcionamento humano é, a
nosso ver, o motor que permite à psicanálise tornar-se plenamente cientíca. Ele foi equacionado,
como vimos, por Freud, mas desvalorizado em função do seu ideal metafísico, a que chamou de me-
tapsicologia. Nesses anos inaugurais, Ferenczi (1982/1933) bateu-se com Freud de modo destemido,
dando relevância aos traumas e às perdas reais das crianças e dos pacientes adultos. Esta conceção
foi depois assumida pelo escocês Fairbairn (1954), o qual, embora usasse uma pesada secretária
entre a sua cadeira e o divã onde recebia os seus pacientes, insistiu de modo muito radical, em que
o bebé saudável está desde sempre orientado para a realidade e que os fantasmas só surgem quan-
do esse bebé é privado da sensorialidade afetiva na relação precoce! Radicalizando esta posição,
Bowlby (1969) construiu a teoria da vinculação inteiramente voltada para a redução da vida psí-
quica a comportamentos, em detrimento total da vida fantasmática, pois que os comportamentos
seriam, de modo igual nos animais e nos humanos, predisposições biológicas e motivações maiores
(ao mesmo nível da libido em Freud). Foram, no entanto, nos anos 80 do século passado, os ameri-
canos Greenberg e Mitchell (1983) que deram relevo a estas conceções e às dos seus conterrâneos
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sobre a interpessoalidade (Sullivan, 1953) e sobre a psicologia do Self (Kohut, 1971). Consumaram,
assim, a rutura com a psicanálise convencional, ao teorizarem o modelo que chamaram a psicanálise
relacional, a qual se foca, não nas relações internas do sujeito consigo próprio, mas nas relações que
se estabelecem entre dois sujeitos reais que se inuenciam um ao outro (Greenberg & Mitchell, 1983).
A Evolução Reformista: A Empatia Enactante
O conceito de Enação, de Enactus, não tem a ver com brotar, nascer, enascente, pois não
se relaciona com Enasci (de enascor, de que deriva enatus, mas não enactus com ”c”: ”nascer“,
”brotar espontaneamente“, etc.), nem deriva de Enancisci, enactus sum ”obter por surpresa, agar-
rar, surpreender“. Enactus relaciona-se com inactus (participo de inigo, inactus sum: ”fazer andar,
empurrar, excitar, levar à ação“ e surge no latim do séc. XVI num documento inglês com o senti-
do de ”decretado, constituído“ e que é donde vem o inglês enactment, isto é, a enação.
Os cognitivistas adotaram o termo para denir uma situação simples onde um sujeito rea-
liza uma ação simples. Lebovici, que como escrevemos era inuenciado por Winnicott e pelos
ingleses, foi buscar aos cognitivistas os conceitos enacção, enactante, enacto, para denir o po-
der da pessoa relacional em plena empatia.
De um modo geral, a experiência vivida da enação envolve o exercício espontâneo que
algumas pessoas usam, provavelmente por estarem mais viradas para a ação do que para a ree-
xão contemplativa. Será o caso dos psicoterapeutas habituados a interagir com bebés, a utilizar o
jogo com as crianças ou a fazerem psicodrama. É o que também acontece às pessoas que se dei-
xam penetrar pela música e que, espontaneamente, se põem a dançar. Esta, a noção de enação
como energia sem esforço criadora da novidade.
Gustav Mahler tornou evidente esta experiência criativa da enação, a propósito do último
movimento da sua Sinfonia nº 2 dedicado ao tema da ressurreição:
“O que tinha vivido nesse dia, precisava ainda de o construir em sons. E contudo,
se não tivesse dentro de mim esta obra, como é que poderia ter vivido um
tal momento? Foi sempre assim comigo: é só quando vivo a sensação que crio
pelos sons, i.e., quando crio pelos sons que vivo a sensação” (Mahler, citado
em La Grange 1979).
Na clínica com bebés e com os pais, Lebovici (2002) era atento ao que observava nos outros
e em si. Numa dessas consultas psicanalíticas, que observámos em vídeo, uma senhora, aban-
donada em criança pelo próprio pai e pouco investida pelo marido, descreveu a interação com
o lho de 7 anos a tomar banho com ela e a mamar ainda. Depois provocou Lebovici mostrando
o seu desejo em ter com ele uma relação amorosa. Este reagiu em enação, propondo a vinda da
criança e do pai à consulta seguinte. No decorrer desta, interpretou o desejo do lho em brincar
com fósforos, dizendo ao pai que este faria bem em pôr-lhe limites ou dar-lhe um pequeno ta-
befe, caso ele quisesse continuar a brincar com o fogo, referindo-se implicitamente, à prática de
mamar e de tomar banho com a mãe. E foi assim que a mãe depois de uma reação de raiva para
com Lebovici acabou por pôr cobro às suas práticas de cariz simbiótico-incestuoso.
Nesta vinheta exemplicativa duma enação atípica e brutal, Lebovici (2002) procurava re-
narcisar-se a si e agir diretamente sobre a constelação familiar, tendo sempre subjacente uma
sua fantasia psicanalítica mais ou menos inconsciente, a de integrar a tríada mãe/pai/bebé na
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constelação edipiana. Na sua perspetiva evolutiva, o pensamento em clínica não o obrigava au-
tomaticamente à inibição da ação, mas movia-o “a reagir, de modo quase involuntário” dizia
ele –, contudo não na base da hipótese cientíca da triangulação, mas na do complexo de Édipo,
sempre mantido como matriz do funcionamento humano.
Este famoso complexo, bem como, mais tarde, os conceitos de cena primitiva e de an-
gústia de castração que lhe estão associados, foram propostos por Freud (1956), a partir da sua
experiência de vida, descrita a partir dum sonho que teve, o “sonho da injeção feita a Irma”,
que revelaria a rivalidade de criança com o seu pai, exacerbada pelo facto da sua mãe ser muito
mais nova do que ele (1897). Tendo corroborado os fantasmas de desejo do pai, na análise do psi-
quismo de algumas mulheres consideradas histéricas, Freud generalizou o complexo de Édipo,
não como uma estrutura patológica associada a traumas reais, mas como caraterística do fun-
cionamento de todo o ser humano! Também agora, na enação retirada da clínica de Lebovici,
chama-nos a atenção o facto da interpretação se focar, não na experiência abandónica vivida
pela mãe com os homens, mas na intencionalidade atribuída à criança, de “querer dormir e de
mamar com a mãe”, sublinhando pois a teoria freudiana da sexualidade infantil!
Falava-se então dos esquemas muito precoces sobre o estar juntos (“weness”) e Lebovici,
que tal como Daniel Stern trabalhava em psicanálise de bebés, interessou-se particularmente
pelas investigações deste sobre as interações precoces. Para Stern (2000, 2006) era claro que
a matriz da intersubjetividade se formava muito cedo a partir da experiência do bebé em
interação com a sua mãe, pela prática da transposição transmodal, pela construção do conti-
nente proto-narrativo e das representações analógicas. O mundo interpessoal do bebé é, pois,
construído pelas interações com a mãe, locais e concretas, vividas no tempo presente e de
forma implícita, originando representações precoces infrasimbólicas. Com estas e outras des-
cobertas, Stern vai revolucionar a teoria das psicoterapias, ao provar que a unidade subjetiva
da psicoterapia é a sucessão de momentos presentes vividos na relação, e que, por isso, a pos-
sibilidade da mudança por psicanálise resulta tanto do conhecimento vivido implícito, como
da interpretação. Por isso Stern (2006) descreveu a psicanálise como uma psicoterapia situada
no momento presente e não como uma metapsicologia transcendente, o que muito irritou os
seus contemporâneos.
Lebovici (2002) considerava Stern como “o colega mais próximo de si” (sic), e convidava-o
regularmente para as reuniões de investigação sobre psicanálise dos bebés. Um dia, houve uma
separação de águas entre o reformador e o revolucionário, em que Stern criticou a prática clínica
da enação edipiana à Lebovici, tratando-a de ”predadora”! Este respondeu, criticando Stern por
negligenciar a situação edipiana na sua teoria. Stern retorquiu que não a negligenciava, que o
que acontecia era que se esquecia da situação edipiana... Lebovici, que tinha uma postura mais
paterna seguindo a regra freudiana sobre a proeminência paterna, mandou-o deixar de fazer
de avozinha protetora da mãe e do bebé. Ao que Stern respondeu que os resultados do trabalho
de Lebovici é que serviam para aprovar a ordem e a organização edipiana, a qual não possuía
suciente base cientica.
A enação empática aparece pois como um método de intervenção, regido pelo paradig-
ma teórico, que condiciona à adoção e ao desempenho de papéis pré-determinados! Talvez
por isso, mas de modo signicativo, a enação empática metafórica, à Lebovici, faz sempre par-
te da função do analista e nunca da função do paciente em análise! Utilizada pela psicanálise
reformista na reconstrução-revisão biográca do paciente, com o objetivo de contribuir para
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que o paciente se dote de uma narrativa coerente sobre a sua vida, e assim que curado! Por
isso, quanto a nós, o que Stern criticou foi esse poder exorbitante dos psicanalistas-rei, que ao
se permitirem atribuir o sentido da vida a partir de grelhas especulativas, perpetuam as neu-
roses de transferência dos pacientes, caraterizadas pela repetição de relações de dependência
de tipo parental. Tudo muda para que na vida das pessoas tudo que na mesma! Por isso, na
perceção cultural ocidental laica, o psicanalista passou a ser visto como o substituto do padre,
aliviando, reduzindo a culpa, mas não envolvido na mudança em profundidade. E talvez em
complementaridade com isso, a tendência de muitos psicanalistas se agregarem em pequenos
clubes, à volta de determinado autor de referência (os freudianos, os kleinianos, os winnico-
ttianos, os bionianos, os lacanianos), como se a ciência fosse uma questão de nomes e não de
temas e de métodos!
Quanto à noção de empatia (Einfuhlung), ela foi introduzida por Lipps, em 1903, para
designar uma projeção de si no objeto (“quando assisto no circo a um acrobata a deslocar-
se no arame, sinto-me dentro dele”). Tornou-se, na moda atual, um conceito usado na con-
tratransferência, para enfatizar a psicologia das emoções. É comum os psicoterapeutas, ao
procurarem identicar-se com os seus pacientes, interrogarem-se, nas supervisões, quando
falam das suas sessões com os pacientes: “O que eu estou a sentir, a sensação que tenho é que
o paciente me está a dizer que...!”. Mas a empatia, como experiência relacional, estende-se a
toda a intersubjetividade e não pode implicar apenas a experiência de como sentimos o outro,
mas devia-se abrir a tudo o que permite a inteligibilidade mútua. Husserl, em 1931 (citado em
Dastur, 2004), descreveu o papel da intersubjetividade na constituição do nosso sistema de
cognição, ao destacar que pela empatia compreendemos os outros como semelhantes a nós,
ou seja, que o outro é experimentado num processo de emparelhamento. Operando numa
outra lógica, a partir do novo conceito da intencionalidade, Merleau-Ponty (1962/1945) ante-
cipou que “há comunicação quando reciprocidade entre a minha intenção e os gestos dos
outros, entre os meus gestos e as intenções dos outros. É como se a intenção do outro morasse
no meu corpo e o minasse!”. Quer dizer, o que funda a autoidentidade do outro no meu corpo
é também o que funda a alteridade do outro. É esta intencionalidade que nalmente funda
o carácter objetivo da realidade humana, no sentido em que descobrimos que o outro é uma
pessoa, semelhante a nós e não um organismo com uma mente, ou um objeto com o qual se
estabeleceriam relações de objeto.
A Revolução Cientíca:
A) A inter-intencionalidade como novo método
Torna-se, pois, necessário retomar o processo sobre o que está em causa, não no psiquis-
mo individual (consciente, inconsciente, pré-consciente) mas nas relações humanas. As des-
cobertas da neurociência e da psicologia social cognitiva, na lógica do conhecimento trans-
versal, contribuem para alavancar a mudança de paradigma na psicanálise, permitindo-lhe
aceder ao novo objeto. (Mendes-Pedro, 2009, 2012, 2017a, March).
Com efeito, ao contrário do que é tido como adquirido pelo senso comum, a mente hu-
mana, não é caraterizada nem pela linguagem nem pela emoção, mas pela capacidade social
que todos temos de, implícita e pré-reexivamente, compreendermos os outros como pes-
soas com intenções. Temos essa capacidade de viajarmos nas mentes uns dos outros, e de
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viajarmos instantaneamente no tempo, entre passado, presente e futuro (Corballis, 2011).
Viajarmos na mente do outro signica que compreendemos que os outros têm estados
mentais semelhantes aos nossos, mas dotados de alteridade. Isto é, caraterizamo-nos por ter
desejos, pensamentos, convicções, ações, previsões e decisões, que podem ser imitados, comu-
nicados interpessoalmente e detetados intencionalmente (Barrett, Dunbar, & Lycett, 2002).
Na cognição humana, as emoções intervêm como uma componente da mente. Os
estados de espírito, também chamados emoções de fundo e emoções vitais (“bem-estar/
mal-estar”, “plasticidade/rigidez”, “harmonia/desarmonia”) produzem o sentido inicial
do si, à Winnicott, mas as emoções primárias (“alegria, tristeza, medo, surpresa, raiva...”
e as emoções secundárias (“culpa, vergonha, compaixão, ciúme...”) são igualmente im-
portantes, como ”marcadores somáticos” para as decisões que envolvem a ação anteci-
padora do futuro (Damásio, 2003). As emoções funcionam, então, como sinais de alarme
quando são negativas, e, como incentivos quando são positivas, e por isso os processos
emocionais são significativos para as relações, mas não minimizam os outros processos
cognitivos complexos. Com efeito, as pessoas agem com miopia, veem desgraças e
são superficiais, não quando apagam/negam/recalcam os seus afetos, mas também
quando não os integram com os estados mentais cognitivos ou com os estados corporais
viscerais (Damásio, 2003). As relações concretas põem em jogo as múltiplas conexões en-
tre os cérebros reptiliano, mamífero e primata de cada ser humano, apesar disso escapar
em grande medida à sua consciência explicita, o que pressupõe a revolucionária desco-
berta freudiana do inconsciente.
Viajar no estado mental dos outros quer então explicitar, não que se viaja no seu aparelho
psíquico ou que se compreende os seus comportamentos, mas, que se compreende suas inten-
ções, isto é, “o porquê” das suas ações quando outrem age de determinada maneira (Rizzolatti
& Sinigaglia, 2007).
Meltzo (2007) que tinha surpreendido ao observar o link neonatal inato, estabele-
cido pelos recém-nascidos com 18 horas de vida, capazes de reproduzir os movimentos de
boca e de face exibidos pelos adultos em interação com eles descreveu a experiência muito
curiosa que diz o essencial sobre o modo como viajamos na mente do outro. Uma criança de 18
meses observa um adulto a falhar uma tarefa, como seja a de lançar uma bola ao cesto. Quan-
do imita o adulto, essa criança é capaz de acertar com a bola no cesto, signicando isso que a
criança muito pequena já é capaz de adivinhar, por projeção corporal, a intenção do adulto.
Este mecanismo de observação e execução começa a ser exercitado de modo não reexivo
desde os 6 meses de idade! Portanto, o ser humano traz em si o potencial de se relacionar com
os outros, de modo semelhante através da imitação, mas sobretudo com a diferença propor-
cionada pela criatividade, ao interagir com ele num contexto que estimula a inter-intencio-
nalidade. Eis o novo método que nos permite estudar a vida relacional,o o da observão
dos comportamentos, mas o da observação/execução da intencionalidade.
A unidade básica da comunicação social é, pois, a intenção vivida. A inter-intencionali-
dade é esta capacidade de viajarmos com a outra pessoa, instantaneamente e por breves se-
gundos, quando observamos/conhecemos as suas ações, quando escutamos no escuro os sons a
elas associadas, quando inferimos automaticamente os seus objetivos futuros. Com efeito, todo
o reconhecimento duma ação, duma sensação, de uma emoção, de um pensamento implica im-
plicitamente sempre um objetivo e um agente. Servindo-nos da intencionalidade, acreditamos,
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pensamos, desejamos, queremos, planeamos, agimos (Barrett et al., 2002).
A técnica da ressonância magnética funcional permitiu a descoberta neurocientíca do
sistema dos neurónios-espelho, presentes em diversas áreas cerebrais, como base neural e
funcional das relações humanas. Quando observo passivamente as ações de outra pessoa, ati-
vam-se os neurónios-espelho no meu córtex frontal inferior que automática e implicitamente
as simula como incorporadas internamente no meu corpo, codicando-as como tendo uma
direção para objetivos. Quando essa ação tem um contexto, o que ocorre quase sempre, são
ativados os neurónios visuomotores e audiovisuais nos córtex occipital, temporal, parietal e
no frontal pré-motor, e a descodica, permitindo a sua compreensão como tendo não ob-
jetivos, mas como tendo intenções viradas para o futuro. É, pois, o contexto, em que se reali-
zam as ações, sensações, emoções, pensamentos das outras pessoas, que permite esclarecer
as intenções das suas ações! A mesma ação em dois contextos diferentes tem dois signicados
diferentes, porque os neurónios-espelho e os neurónios codicados dos atos motores não
codicam as ações observadas e os seus objetivos imediatos, como codicam o contexto dessa
ação e, por isso, codicam a intenção global e futura, por detrás da ação. Mas estes processos
não são de leitura linear, porque uma ação pode ser registada nos neurónios-espelho sem ter
sido observada, podendo apenas referir-se à antecipação de ações futuras, desde que estas
sejam virtualmente consideradas pela intencionalidade como ecazes para o futuro! (Gallese,
2003; Rizzolatti & Sinigaglia, 2007).
Como as descobertas sobre a vida relacional dos bebés, estas descobertas atuais mos-
tram que a partilha da intencionalidade entre duas pessoas, resulta não da aplicação de uma
atribuição de sentido, mas da descoberta do sentido que está impresso nos mecanismos im-
plícitos e pré-linguísticos que ocorrem no espaço da sintonia intencional. A compreensão da
intenção e o reconhecimento da ação doutra pessoa são intrinsecamente signicativas para
cada um de nós, porque derivam de uma mesma operação neural que se realiza no outro e
em nós, automaticamente pelos dois sistemas cerebrais motores, em presença um do outro
(Iacoboni et al., 2005). Viajo na outra pessoa, como ela viaja em mim. Por isso, o psicanalista,
para penetrar no mundo do outro, não tem necessidade de teorizar, e é mesmo sobretudo
quando o teoriza, mas vive a relação com o outro que acede a ele como pessoa. Porque a
Mente é função da relação!
Este processo da descoberta da intenção é mediado por dois dispositivos, dois mecanis-
mos: o do processamento entre um rosto e outro rosto através das trocas de olhares e o do pro-
cessamento cerebral da intencionalidade (Rizzollati & Sinigaglia, 2007).
Intuitivamente, Winnicott, através da observação da descoberta do sentido existente na
troca de olhares e no modo de segurar o bebé, e Lebovici, através da empatia enactante ressen-
tida corporalmente, contribuíram de modo inovador para a compreensão da dinâmica inter-re-
lacional, parecendo intuir o método da inter-intencionalidade.
Foi, no entanto, o chamado Boston Change Process Study Group (2007) constituído por
Daniel Stern, e por outros grandes especialistas, como Tronick, Ruth-Lyons, Sander e Nahum,
que mostrou, através de várias publicações coletivas, que o nível mais profundo da relação
humana não são os fantasmas e as defesas, mas sim o vivido no aqui e no agora, onde o incons-
ciente não se restringe ao recalcado, mas abrange toda a zona não reprimida das relações
implícitas. Por outro lado, mostrou ainda, que quando duas ou mais pessoas estão em com-
preensão complementar, elas criam intuições e respostas intuitivas de descoberta do sentido
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(Boston Change Process Study Group, 2008). São representações infra verbais infra simbólicas,
intenções, intuições, metáforas corporais, jogos de humor, enações que inesperadamente
surgem, espontâneas, da intimidade partilhada, e que revelam o sentido da vida virada para
o amanhã (Mendes-Pedro, 2009, 2016).
Na relação psicanalítica, a sintonia intencional, que permite a complementaridade intui-
tiva, surge quando o paciente, ao interagir com o seu psicoterapeuta, intui um novo sentido ori-
ginal e singular, ao intuir a intenção deste sobre o futuro. E do mesmo modo, o psicoterapeuta
intuirá o sentido do seu paciente quando é capaz de intuir a intenção imediata, mas sobretudo
a intenção futura dele, ao agir e reagir de uma certa maneira no concreto de um contexto. A ena-
ção que surge é mútua, e pressupõe que os dois tenham saído do processo repetitivo das relações
patológicas que os prendem ao passado. A descoberta da inter-intencionalidade provoca pois
respostas inovadoras, voltadas para o futuro, nos dois intervenientes da intimidade partilhada.
Aqui, a forma da sua expressão é secundária, seja ela feita ação, seja ela gestual ou verbal. O que
importa é o futuro que a move e a motivação que a determina.
B) A relação como novo objeto cientíco
Para suscitar mudança real, e não fantasmática, nas relações íntimas do consultante, a
relação psicanalítica tem de se situar na esfera do vivido, o qual está sempre voltado para o futu-
ro, e não só no da compreensão do passado. Assim, a clássica centração na transferência-contra-
transferência que se baseia no levantamento da amnésia infantil e na interpretação da realidade
à luz do passado, é um obstáculo e uma resistência ao novo e ao vivido. O próprio Freud (1956)
começou por o considerar sem ter encontrado uma alternativa.
A prática e reexão clínicas (Mendes-Pedro, 2009, 2013b, 2016, 2017a, March) mostram, en-
tão, que a relação psicanalítica, para produzir desenvolvimento pessoal, se deve centrar na qua-
lidade da resposta, implícita e explícita, às necessidades e aos objetivos do consultante. Não se
trata de uma simples questão técnica de interpretação do passado, mas de uma questão de amor,
de aceitação enactante do Outro. Neste novo paradigma, o fundamental é que o novo padrão
relacional se construa em função do projeto, do sonho e do futuro que move as pessoas. E assim
necessariamente, as duas pessoas, pela descoberta mútua das suas intenções, constroem um
novo padrão relacional. Mas para que este processo tenha lugar, exige-se também que a relação
psicanalítica ultrapasse e vença o peso das relações patológicas do passado! Centrar-se, não no
passado, mas no presente-futuro desfazendo-se dos laços que aprisionam ao passado. Como?
Foi Coimbra de Matos, partindo da sua investigação pessoal baseada na observação e na
experimentação com adultos no divã, quem criou e primeiro fundamentou a necessidade de
romper com o modelo transferencial/contratransferêncial e de aceder ao novo modelo a que
chamou de “Nova Relação”. Este novo paradigma da psicanálise foi apresentado em duas Con-
ferências, uma no Congresso Luso-Brasileiro na Baía, no Brasil, em 2007 (Matos, 2011), e a ou-
tra na Conferência Internacional do International Forum for Psychanalytic Education, em 2012
(Matos, 2013), em Portland, nos Estados Unidos, onde Coimbra de Matos recebeu um prémio
internacional pelos seus trabalhos sobre a Nova Relação.
O ponto de partida deste novo paradigma, assenta na “regra de ouro” de que a relação
terapêutica não consiste em “interpretar na transferência/contra-transferência”, mas na de
“analisar e interpretar a transferência” logo à nascença para dissolver, desmontar, desmante-
lar, a neurose transferencial, e construir, colher e recolher a nova relação como “motor da cura”
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(Matos, 2011, 2013).
A prática tradicional transfere a patologia do paciente para a relação psicanalítica,
modelando, condicionando e promovendo a tolerância ao sofrimento e à frustração, e reduz a
mente em vez de suscitar mudança. Como sabemos todos, embora nem todos queiramos pensar
sobre isso, essa prática acaba por transformar, através de análises longas e intensas, os sintomas
do paciente em traços carateriais da sua personalidade. E por sua vez o analista, pela sua
neurose contra-transferencial gerada pelo passado transferido do paciente, ca empossado por
um papel mítico todo poderoso (o psicanalista é o que supostamente sabe tudo), deixando o par
aprisionado ao estilo das guras do passado que captaram o analisando. Assim, na perspetiva da
intencionalidade, a interação entre psicanalista e paciente não lhes permite acederem ao sentido
das intenções mútuas que são precisamente voltadas para o futuro, as chamadas “memória do
futuro” (Bion, 1977), ou só lhes permite esse pretenso objetivo se ele for promovido pelas grelhas
interpretativas, criando um hiato com o vivido!
Assim, de modo consequente, o paradigma do novo relacionamento em psicanálise, esta-
belecido a partir duma aliança entre o psicanalista e o paciente, implica que, desde o início da
relação, o psicanalista viva e responda nela de modos radicalmente diferentes daqueles que o
paciente viveu no seu passado. Agora o psicanalista exerce “uma função de farol”, porque é o
primeiro a interessar-se pela relação e pelo paciente, cria uma relação real implícita e explícita,
com afetos autênticos, emocionalmente vivida. Nisto, segue o modelo da mãe, que primária e
anteriormente se encanta com o seu bebé (bonding) e cuida dele, de modo a que este aprende a
amar como ela ama. Este estilo de relação, em que sente e age com espontaneidade e responsivi-
dade, é incompatível com a neutralidade clássica do psicanalista-espelho. Agora, o psicanalista
traça as linhas do desenvolvimento, participa, é proativo, e o paciente acaba por se sentir reco-
nhecido e amado. Por isso, Coimbra de Matos, que se considera um revolucionário, imprime à
relação uma (com)paixão, que é idêntica ao rigor cientíco que coloca na investigação. Costuma
armar: só trato as pessoas de que gosto e em quem aposto. É essa conança transmitida aos pa-
cientes, antes derrotados, e agora “alevantados do chão” leva-os a aprender a construir mundos
novos!
Focada no presente e voltada para as expetativas do futuro, a relação psicanalítica assen-
ta sem reservas no princípio de que o analisando é que conduz a sua autoanálise e, por isso, a
relação se torna entusiasmante. Fica insaturada porque é uma relação de complementaridade
identitária, e não de comunhão identitária-em-espelho, pois abre espaços livres para a diver-
gência, a negociação de consensos e a alteridade. Promovendo a liberdade como valor supremo,
o paciente torna-se livre, estando ligado. E é esta nova relação experimentada pelo par analí-
tico, que progressivamente vai ser transferida para a vida diária de todas as outras relações do
analisando, produzindo resultados reais e duradouros, transformando as identidades e o estilo
relacional, concebendo projetos virados de expansão do futuro. Trata-se de uma revolução, e
não de uma revolta!
A expansão identitária subjetiva e a mudança de estilo relacional estão ligadas ao que
Coimbra de Matos (2002) chama os três processos da identicação. Apoia-se antes de mais,
no desenvolvimento da identidade social com os outros, através da identicação imagoico
-imagética – em resultado da identidade atribuída pelos pais e pelo psicanalista ao analisan-
do- e através da identicação alotriomórca a única que a psicanálise clássica reconhece
como resultante da identicação ao modelo admirado. Nas relações saudáveis, estes proces-
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sos proporcionam a empatia e a compaixão, e nas doentias, em que a pessoa é reduzida à
imagem que os outros querem dela, produzem identidades superciais. Por isso, na relação
psicanalítica que é facilitadora, a força motriz para a expansão identitária está na identica-
ção idiomórca a nós mesmos, enquanto pessoas originais e criadoras. É uma identicação
por auto-concepção, que se desenvolve em resultado da nossa própria experiência pessoal,
fazendo emergir o eu genuíno, a resiliência, a criatividade. Quando tomamos a iniciativa
de amar alguém que responde na mesma sintonia, somos íntimos, exploramos a realidade
e vivemos a aventura da vida, isto é, cocriamos! São estes três processos, em especial o da
identicação idiomórca, que favorecem o acesso ao método da inter-intencionalidade como
experiência coerente, regular e previsível.
Conclusão
A crise da psicanálise manifesta-se, hoje, no debate entre as suas correntes, que se ar-
mam e se anulam mais à volta de argumentos do que de factos! Este é o ambiente favorável para
a psicanálise se libertar das cções da metapsicologia, e se armar como ciência da observação
e da transformação das relações humanas!
Por outro lado, as perspetivas das psicologias, cognitiva, comportamental, dinâmica, bio-
lógica, rogeriana, evolutiva, todas contribuem para o conhecimento do desenvolvimento huma-
no, mas nenhuma acede a uma explicação global integradora, ainda que os atuais contributos
da neurociência e da psicossociologia, como da psicanálise das inter-ações bebés-cuidadores e
dos pacientes-terapeutas se mostrem mais determinantes para a compreensão das relações hu-
manas, no âmbito da transversalidade do conhecimento pós-multidisciplinar contemporâneo.
Este artigo não tem o objetivo de circunscrever uma teoria geral das relações humanas. A sua
primeira aplicabilidade consiste em armar o novo paradigma psicanalítico das relações humanas,
como estudo da relação interpessoal saudável, que se desenvolve de modo implícito e explícito.
Foi a proliferação de metodologias e técnicas de observação e de intervenção que beneciou a psi-
canálise pois forçou o questionamento sobre o paradigma metapsicológico. O salto do pensamento
mítico/religioso para o pensamento cientíco só foi conseguido quando os psicanalistas, no encal-
ce de epistemologistas como Popper ou Feyerabend (1975), ousaram pôr em causa o princípio da
compatibilidade que lhes exigia que as novas hipóteses estivessem de acordo com as teorias do
aparelho psíquico, a das pulsões e dos fantasmas originários, a da sexualidade infantil e do com-
plexo de Édipo. Em contra-indução, o novo epistema da psicanálise (a que na altura chamámos
Filocreia = amigo das relações íntimas) foi por nós proposto em 2011, na Annual Interdisciplinary
Conference do International Forum for Psychoanalytic Education (Mendes-Pedro, 2013b).
É uma mudança do paradigma que conduz a prática psicanalítica a sair da regressão ao
passado e da reparação, para se tornar na retoma do desenvolvimento, em função de um futuro
voltado para o alcance exequível da felicidade (Matos, 2011; Mendes-Pedro, 2016). Tem igual-
mente o alcance de considerar a doença mental, como resultante de relações interpessoais pato-
lógicas (Mendes-Pedro, 2013b).
A segunda aplicabilidade deste artigo consiste na proposta de que a inter-intencionalidade
deve ser considerada pela psicanálise como um método fundamental para a análise da qualida-
de das relações humanas íntimas e da sua transformação. É no contexto das interações humanas
sadias que intuímos as intenções mútuas, ao intuirmos o sentido das intenções futuras uns dos
outros. A intenção é, pois, uma tenção virada para o futuro que suscita, necessariamente, a res-
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posta intuitiva complementar do outro, ecaz para a realização dos projetos imediatos ou a mais
longo prazo. A sua avaliação é vericável pelas técnicas da imagiologia e pelos instrumentos da
observação interativa, implícita e explícita.
Nas relações de intimidade real, em que naturalmente reinam o amor e a liberdade, as
ações do outro, descodicadas automaticamente em nós, suscitam de modo quase involuntá-
rio, enações intencionais, muitas vezes na forma de intuições, de metáforas corporais e jogos
de humor, de ações infra verbais, ao serviço da autonomia identitária, do empoderamento e da
criatividade mútua. A inter-intencionalidade é nalmente a cognição antecipadora, que muitas
vezes inesperadamente se organiza simultaneamente nas mentes de duas pessoas em interação
e as move a amarem, a acreditarem, a pensarem e a decidirem, com entusiasmo, curiosidade e
humor. Estes, os parâmetros básicos em validação.
Na relação psicanalítica íntima, com envolvimento de amor não sexual (à maneira da mãe
com o seu bebé), o que importa explorar é o futuro risonho para o paciente que o método da des-
coberta intencional proporciona. Esta relação desenvolve as competências do paciente, através
do treino de novos instrumentos, os quais vão ser utilizados nas outras relações do quotidiano
desse paciente, em que enfrenta situações, resolve conitos, cria relações saudáveis e descobre
novos horizontes. Assim se realiza a mudança global das pessoas pela expansão da identidade,
pelo novo modo de se relacionar com os outros e de desfrutar da vida, favorecendo novos méto-
dos e novas teorias, novas realizações.
Concluímos este artigo com três sugestões. Na primeira propomos que o setting psicanalí-
tico benecie da promoção de métodos e técnicas. Assim a utilização do divã ou do face a face
deve sempre fazer parte da negociação democrática de cada díade, em função do que for me-
lhor para a descoberta inter-intencional. Sabemos que os humanos usam mais os instrumentos
do face a face e da troca de olhares, ao contrário de todos os outros animais, exceto os macacos
bonobos, para ativarem os centros da intencionalidade. Mas a observação relacional e clínica
também mostra que a utilização do dispositivo do divã, tanto pode contribuir para isolar e cap-
tar a realidade mais íntima do paciente, à maneira dos amorosos que escolhem a penumbra do
quarto para o amor, como pode favorecer os binómios relacionais caraterizados pelo domínio-
dependência e pela indiferença-regressão.
Uma segunda sugestão tem a ver com a interpretação dos sonhos. Com efeito, como sa-
bemos a alternância circadiana da vigília-sono-sonho promove a plasticidade da consciência,
fazendo interagir a consciência vigil/secundária com a consciência onírica/ primária. Temos
esse poder de viajar na realidade, mas também no mundo virtual, o que desenvolve a nossa
capacitação para a criação. O sentido dos sonhos opera por si e não é unívoco, mas, à luz do
método da inter-intencionalidade, eles antecipam os medos ou os desejos relacionados com o
futuro próximo (Hobson, 2009; Mendes-Pedro, 2013, September).
A terceira sugestão, proporcionada por este artigo, está virada para a consciência ética. A es-
trutura nanceira impõe às relações humanas, no contexto sócio-económico-político atual, os cinco
sintomas: medo, vergonha, insegurança, isolamento e impotência, com degradação da saúde e agra-
vamento das desigualdades (Mendes-Pedro, 2017b, March). É expetável que a nova psicanálise abor-
de o trabalho humano como criação para a expansão identitária e relacional. Mudar o paradigma da
psicanálise é também sair do conservadorismo da relação inter-individual e promover o ecossistema
das relações humanas em interação mútua (núcleo familiar, amizades, vizinhança, escola, trabalho,
internet, associações, partidos, grupos de pertença socio-económica e cultural). A psicanálise é então
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